Avanços no sequenciamento genético permitem compreender como bactérias intestinais influenciam recuperação muscular, metabolismo e adaptação aos treinos
São Paulo – Conhecida principalmente por seu papel na digestão, a microbiota intestinal tem despertado cada vez mais interesse entre atletas e pesquisadores por sua possível influência sobre o desempenho esportivo. Estudos recentes indicam que os trilhões de microrganismos presentes no intestino podem participar de processos ligados à produção de energia, recuperação muscular, resposta inflamatória e adaptação ao exercício.
Segundo Ilanna Marques, nutricionista e consultora científica da Bioma Genetics, as evidências científicas mostram que a relação entre atividade física e microbiota ocorre em duas direções. “O exercício influencia a composição da microbiota, e a microbiota, por sua vez, pode impactar processos biológicos importantes para o desempenho, a recuperação e a adaptação aos treinos”, explica.
Pesquisas apontam que atletas costumam apresentar uma microbiota mais diversa do que pessoas sedentárias, com maior presença de bactérias associadas à produção de metabólitos benéficos para o metabolismo e para a saúde intestinal. Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema, publicado na revista científica Gut, identificou maior diversidade da microbiota intestinal em atletas de elite quando comparados à população sedentária.
Ao mesmo tempo, a prática regular de exercícios também altera esse ecossistema. Mudanças no metabolismo, no fluxo sanguíneo intestinal e na disponibilidade de nutrientes favorecem o crescimento de determinadas espécies de microrganismos, contribuindo para uma composição diferente da observada em pessoas fisicamente inativas.
Sequenciamento amplia conhecimento sobre o intestino
O avanço das tecnologias de sequenciamento genético também tem impulsionado as pesquisas sobre microbiota. Por meio do sequenciamento de nova geração (NGS), é possível identificar centenas de espécies bacterianas presentes no intestino, além de analisar sua diversidade e abundância.
De acordo com a especialista, essas informações permitem aos profissionais de saúde compreender melhor como cada organismo responde à alimentação, ao exercício físico e a outros fatores do estilo de vida, favorecendo estratégias mais individualizadas.
“No contexto esportivo, conhecer o perfil da microbiota pode fornecer informações complementares sobre aspectos relacionados ao metabolismo, à recuperação e à adaptação ao exercício. Não existe uma microbiota ideal para todos, mas é possível entender melhor as características biológicas de cada indivíduo”, afirma.
Aplicações vão além do esporte
Embora o interesse pelo tema tenha crescido entre atletas, as pesquisas sobre microbiota intestinal também avançam em outras áreas da medicina. Atualmente, cientistas investigam sua relação com doenças metabólicas, como obesidade e diabetes, além de condições cardiovasculares, imunidade, saúde mental e envelhecimento saudável.
Apesar de ainda não ser possível estabelecer programas de treinamento baseados exclusivamente no perfil da microbiota, especialistas apontam que a saúde intestinal tende a se consolidar como mais um fator importante para a promoção da saúde e do desempenho físico.























