Uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde revelou que o uso de cigarros eletrônicos no Brasil alcançou 2,6% da população adulta em 2024, o maior índice desde o início da série histórica em 2019. Os dados preocupam autoridades sanitárias e evidenciam uma tendência de crescimento no consumo desses dispositivos, especialmente entre os jovens e mulheres, grupos que historicamente apresentavam menores taxas de tabagismo.
O levantamento, realizado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), mostrou que a maior concentração de usuários está entre os adultos jovens de 18 a 24 anos, grupo no qual o uso de “vapes” e outros dispositivos eletrônicos para fumar vem crescendo de forma mais acentuada. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, esse público será o foco da nova campanha de enfrentamento ao tabagismo, com ações voltadas para a educação sobre os riscos associados ao uso desses produtos.
O dado mais alarmante, no entanto, refere-se ao crescimento do uso entre as mulheres. Pela primeira vez, elas superaram os homens no consumo de cigarros eletrônicos: 2,6% das mulheres adultas declararam utilizar esses dispositivos, contra 2,5% dos homens. O salto em relação ao ano anterior — quando o índice feminino era de 1,4% — evidencia uma mudança de perfil do consumidor e desafia as políticas públicas de prevenção e combate ao tabaco.
O tabagismo segue como um dos maiores problemas de saúde pública no país. De acordo com o Inca, são registradas em média 477 mortes por dia no Brasil relacionadas ao consumo de produtos derivados do tabaco. Isso representa aproximadamente 174 mil óbitos anuais, que poderiam ser evitados com ações mais efetivas de prevenção. Além das doenças diretamente ligadas ao fumo, como câncer de pulmão e doenças cardiovasculares, os cigarros eletrônicos também têm sido associados a lesões pulmonares graves, como a EVALI — condição inflamatória causada pelo uso desses dispositivos.
O impacto financeiro também é significativo: os custos anuais atribuídos às doenças relacionadas ao tabagismo chegam a R$ 153,5 bilhões no Brasil, segundo estimativas do Inca. Esse montante inclui gastos com tratamentos médicos no SUS, perda de produtividade, aposentadorias precoces e despesas familiares com cuidados. Em contraste, a arrecadação de impostos federais sobre produtos derivados do tabaco em 2022 foi de apenas R$ 8 bilhões — um valor que cobre apenas 5,2% do total dos prejuízos.
Apesar da proibição vigente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — que impede a venda, propaganda, importação e armazenamento de cigarros eletrônicos no país —, os produtos continuam a circular amplamente no mercado informal, em especial por meio de redes sociais e aplicativos de entrega. Para o ministro Padilha, a manutenção da proibição é essencial, destacando que o Brasil mantém um índice de uso bem inferior ao de países que liberaram esses dispositivos.
A nova campanha “Sem Cigarro, Mais Vida”, lançada pelo Ministério da Saúde, busca conscientizar a população sobre os perigos do tabaco em todas as suas formas. Com ações educativas nas escolas, mídias digitais e unidades de saúde, a campanha visa principalmente desestimular o primeiro contato dos jovens com os cigarros eletrônicos — frequentemente vendidos com sabores doces e embalagens atrativas.
Diante desse cenário, especialistas alertam para a urgência de fortalecer a fiscalização, atualizar legislações e ampliar programas de cessação do tabagismo. A meta, segundo o governo, é evitar que uma nova geração se torne dependente de nicotina, agora em formatos tecnológicos, mas com os mesmos riscos que os cigarros tradicionais oferecem.

























