A vivência com uma doença crônica tem levado cada vez mais mulheres a ressignificarem suas trajetórias e a assumirem o protagonismo sobre suas próprias escolhas. É o caso da comunicadora, mentora e palestrante Fabiana Jafif, que transformou o diagnóstico de esclerose múltipla em um ponto de virada para uma vida mais consciente e alinhada a seus propósitos.
Fabiana recebeu o diagnóstico aos 29 anos. A esclerose múltipla, doença neurológica autoimune que exige acompanhamento contínuo, trouxe inicialmente sentimentos de medo e incerteza, especialmente em um período em que ainda havia pouca informação e muitos estigmas sobre a condição.
Na época, ela vivia uma fase intensa: conciliava a maternidade recente com o trabalho em marketing digital. Poucos meses após o diagnóstico, criou o blog “De Madre a Madre”, um dos primeiros espaços na Argentina voltados à experiência real da maternidade. Inicialmente, o canal funcionava como um espaço de desabafo e troca sobre os desafios de ser mãe de primeira viagem.
O tema da doença, no entanto, permaneceu fora do debate público por um período. A mudança ocorreu após o nascimento da segunda filha, quando Fabiana decidiu compartilhar sua condição. A partir desse momento, o que era silêncio se transformou em diálogo, abrindo espaço para a troca de experiências com outras mulheres que também convivem com doenças crônicas.
Com o tempo, o diagnóstico deixou de ser apenas um desafio e passou a representar um marco de transformação pessoal. Segundo Fabiana, a condição a levou a rever prioridades e a adotar uma postura mais consciente em relação ao tempo e às escolhas. “A esclerose múltipla me ensinou que eu não podia adiar a minha vida”, afirma.
Um dos momentos decisivos dessa mudança foi a reflexão sobre o legado que gostaria de deixar para as filhas. A partir disso, passou a orientar sua vida com base em decisões mais alinhadas aos seus valores e objetivos.
Brasileira radicada em Buenos Aires, Fabiana tem formação em Relações Públicas e construiu carreira nas áreas de marketing e comunicação. Após o diagnóstico, passou a atuar como mentora e desenvolveu projetos voltados ao fortalecimento de mulheres, especialmente mães empreendedoras. Essa experiência resultou no livro “No te dejes para después”, no qual propõe reflexões sobre autocuidado, escolhas e a importância de não adiar projetos pessoais.
Entenda a esclerose múltipla
A esclerose múltipla é uma doença neurológica autoimune e crônica que afeta o cérebro e a medula espinhal, atingindo majoritariamente mulheres. O diagnóstico costuma ocorrer entre os 20 e 40 anos, fase marcada pela construção de carreira e de projetos de vida.
A condição ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar a mielina, estrutura responsável por proteger os neurônios. Entre os sintomas estão fadiga, alterações motoras, sensoriais, visuais e cognitivas, que variam de acordo com cada paciente. Os sinais costumam surgir em surtos, caracterizados por episódios de piora neurológica com duração mínima de 24 horas.
Apesar de ainda não ter cura, a doença conta com tratamentos capazes de controlar sua progressão. De acordo com a neurologista Viviane Carvalho, o acompanhamento precoce é fundamental para reduzir a atividade inflamatória e prevenir novas crises.
“Atualmente, o principal objetivo no manejo da esclerose múltipla é controlar a progressão desde as fases iniciais. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, é possível preservar a funcionalidade e a qualidade de vida dos pacientes”, explica.
O modelo de cuidado tem evoluído para uma abordagem compartilhada, em que paciente e equipe de saúde definem juntos as estratégias de tratamento, considerando objetivos de vida, riscos e benefícios. Essa perspectiva tem permitido que muitas mulheres mantenham suas rotinas, carreiras e projetos pessoais.
Protagonismo e escolhas
A trajetória de Fabiana Jafif reforça a importância do protagonismo diante de uma condição crônica. Mais do que lidar com o diagnóstico, trata-se de construir uma vida baseada em escolhas conscientes e no respeito aos próprios limites.
Para ela, o empoderamento também passa pela capacidade de decidir como viver, independentemente das circunstâncias. “Você tem sempre dois caminhos: ou é protagonista da sua vida, ou assume o papel de vítima”, afirma.
Histórias como a de Fabiana evidenciam que o diagnóstico de uma doença crônica não precisa representar o fim de projetos pessoais. Em muitos casos, pode ser o início de uma nova forma de viver, com mais clareza, intencionalidade e autonomia.

























