Se o ritmo atual for mantido, cerca de 3 bilhões de adultos — aproximadamente metade da população adulta mundial poderá estar com sobrepeso ou obesidade até 2030. A projeção, do Atlas Mundial da Obesidade 2025, reforça a dimensão de um problema que vai muito além das consequências físicas. Para milhões de pessoas, conviver com a obesidade também significa enfrentar a gordofobia – um preconceito que compromete a saúde mental, dificulta o acesso ao tratamento e gera discriminação em diferentes ambientes da sociedade.
Em 10 de setembro, quando é celebrado o Dia de Luta Contra a Gordofobia, especialistas reforçam a importância de combater o estigma associado à obesidade e de ampliar o entendimento de que se trata de uma doença crônica, complexa e multifatorial.
“Apesar dos avanços no conhecimento sobre a obesidade, o preconceito ainda interfere no acesso ao tratamento, nas relações sociais e até nas oportunidades profissionais. O paciente não pode ser definido apenas pelo seu peso. Ele precisa ser acolhido e tratado com respeito”, afirma o Prof. Dr. Durval Ribas Filho, médico nutrólogo, Fellow da The Obesity Society (TOS – EUA), presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e palestrante do CBN 2026 (Congresso Brasileiro de Nutrologia).
Para ele, reduzir a obesidade a uma questão de aparência ou força de vontade é um dos principais fatores que alimentam a discriminação. “A obesidade não é resultado apenas de escolhas individuais. Ela envolve fatores biológicos, genéticos, metabólicos, ambientais, comportamentais e sociais. Quando a sociedade ignora essa complexidade, reforça estereótipos que geram sofrimento emocional, isolamento e atraso na busca por tratamento”, explica.
O médico nutrólogo ressalta que a discriminação pode estar presente em situações cotidianas, como comentários aparentemente inofensivos, dificuldades de acessibilidade em espaços públicos, pressão estética, exclusão no ambiente de trabalho e até dentro da própria família. “O combate à gordofobia deve ser entendido como uma questão de saúde pública. O acolhimento faz parte do tratamento tanto quanto a alimentação adequada, a prática de atividade física e o acompanhamento médico”, acrescenta.
Confira 10 pontos fundamentais para a conscientização sobre a Gordofobia:
Reconheça que obesidade é uma doença.
Ela é crônica e multifatorial, não uma simples consequência da falta de força de vontade.
Combata a discriminação no dia a dia.
A exclusão social, a falta de acessibilidade e situações constrangedoras comprometem a qualidade de vida e a dignidade das pessoas com obesidade.
Reveja conceitos e preconceitos.
Estigmas alimentam a humilhação, a inferiorização e o isolamento social.
Não associe aparência à capacidade.
O padrão estético de magreza favorece julgamentos injustos que relacionam excesso de peso à preguiça, desleixo ou incompetência.
Entenda que mulheres sofrem ainda mais pressão.
A gordofobia costuma atingir as mulheres de forma mais intensa, sendo agravada por fatores como gênero, etnia e sexualidade.
Saúde não depende apenas do peso.
Pessoas magras também adoecem, enquanto pessoas com obesidade podem apresentar bons indicadores de saúde em diferentes aspectos.
Evite comentários sobre o corpo das pessoas.
Expressões como “você tem um rosto bonito, mas…” ou “você seria mais bonita se emagrecesse” reforçam preconceitos, mesmo quando parecem elogios.
Atenção aos impactos emocionais.
A gordofobia pode contribuir para ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos alimentares, especialmente entre adolescentes.
Esqueça o mito do “é só fechar a boca”.
A obesidade resulta da interação de diversos fatores biológicos, genéticos, metabólicos, ambientais e sociais. Simplificar essa condição apenas aumenta a culpabilização do paciente.
O tratamento deve olhar para a pessoa, não apenas para a balança.
A avaliação médica precisa considerar saúde física e mental, alimentação, atividade física, histórico clínico, qualidade de vida e contexto social.
O Prof. Dr. Durval Ribas Filho lembra que o enfrentamento da obesidade depende tanto do comprometimento do paciente quanto do apoio da sociedade. “O cuidado com a saúde começa pela própria pessoa, mas esse processo só é possível quando existe acolhimento, respeito e acesso ao tratamento. Combater a gordofobia é um passo essencial para que mais pessoas procurem ajuda sem medo de julgamento”, afirma o Coautor, ao lado do Dr. Arthur Kaufman, do livro Obeso Acolhido. E conclui: “ainda há um longo caminho para mudar a forma como a sociedade enxerga a obesidade. Enquanto o preconceito persistir, muitas pessoas continuarão sofrendo não apenas com a doença, mas também com a discriminação.”























