Estado tem estimativa de 1.370 novos casos da doença por ano e iniciou a implantação do exame molecular no SUS. Especialistas discutirão as novas diretrizes durante congresso em Salvador.
A Bahia começa uma nova fase na prevenção do câncer do colo do útero com a implantação gradual do teste molecular para detecção do DNA de tipos cancerígenos do Papilomavírus Humano (HPV) no Sistema Único de Saúde (SUS). Previsto nas novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, publicadas em 2025 pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), o exame passa a ser adotado como método primário de rastreamento, substituindo progressivamente o Papanicolau como primeiro teste para mulheres de risco habitual.
A mudança será um dos destaques do 35º Congresso Brasileiro de Patologia e do 28º Congresso Brasileiro de Citopatologia, que acontecem entre os dias 12 e 15 de agosto, no Centro de Convenções de Salvador (Av. Octávio Mangabeira, n. 5.490, Boca do Rio, Salvador/BA).
A atualização representa uma das mais importantes mudanças na política brasileira de prevenção do câncer do colo do útero nas últimas décadas. Além de incorporar o teste molecular, as novas diretrizes reorganizam o rastreamento para ampliar a cobertura da população e identificar precocemente mulheres com maior risco de desenvolver a doença.
A mudança ganha especial relevância na Bahia, onde o INCA estima 1.370 novos casos de câncer do colo do útero por ano. Apesar de ser altamente prevenível por meio da vacinação contra o HPV e do rastreamento, a doença permanece entre as mais incidentes entre as mulheres brasileiras, com maior impacto nas regiões Norte e Nordeste, onde persistem desigualdades no acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
“O câncer do colo do útero é altamente prevenível, mas sua incidência ainda reflete as desigualdades brasileiras. As mulheres que enfrentam maior dificuldade para acessar vacinação, informação, rastreamento e serviços especializados são justamente as que apresentam maior risco de receber o diagnóstico em fases avançadas”, afirma a Dra. Karla Kabbach, patologista membro da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), entidade promotora do evento junto com a Sociedade Brasileira de Citopatologia (SBC).
O que muda com o novo rastreamento – A principal mudança é a adoção do teste molecular para detecção do DNA-HPV como exame inicial de rastreamento. A coleta é realizada de forma semelhante à do Papanicolau, utilizando uma pequena escova para obter células do colo do útero. A diferença está na análise feita em laboratório: enquanto o Papanicolau avalia ao microscópio se essas células apresentam alterações, o teste molecular pesquisa diretamente a presença dos tipos de vírus HPV associados ao maior risco de desenvolvimento do câncer.
Para mulheres de risco habitual, o rastreamento passa a ser recomendado a partir dos 25 anos. Quando o resultado for negativo, o exame poderá ser repetido após cinco anos. Já um resultado positivo para HPV não significa câncer, mas indica a necessidade de investigação complementar para identificar precocemente possíveis lesões precursoras.
A Dra. Graziela de Macêdo Matsushita, patologista membro da SBP, citopatologista e presidente da SBC, esclarece que o Papanicolau continuará sendo um exame fundamental.
“As novas diretrizes representam uma mudança de paradigma no rastreamento do câncer do colo do útero. O teste de DNA-HPV passa a ser o método primário, enquanto a citopatologia, através do Papanicolau, assume uma função mais direcionada na avaliação das mulheres com resultado positivo e na estratificação de risco. Isso não reduz sua importância do Papanicolau, ao contrário, torna sua atuação ainda mais estratégica”, explica.
Na prática, o Papanicolau deixa de ser a porta de entrada do rastreamento, mas continua tendo papel importante na investigação dos casos positivos. Mulheres com resultado positivo para os tipos 16 ou 18 do HPV, que são associados ao maior risco de câncer, são encaminhadas diretamente para a colposcopia, exame em que o médico observa o colo do útero com um aparelho de aumento para identificar áreas suspeitas e, se necessário, realizar uma biópsia.
Nos demais casos de HPV de alto risco, é realizado primeiro o Papanicolau, que analisa as células do colo do útero para verificar se existem alterações que justifiquem o encaminhamento para a colposcopia.
“A tecnologia, por si só, não resolve o problema. O sucesso do novo modelo depende da implantação de um rastreamento organizado e da integração entre o teste molecular, a colposcopia, a biópsia, o exame citopatológico (Papanicolau) e o acompanhamento adequado das pacientes até a conclusão do diagnóstico e do tratamento”, destaca a Dra. Graziela.
As novas diretrizes também preveem a autocoleta da amostra para o teste de HPV, estratégia que pode ampliar o acesso ao rastreamento entre mulheres que vivem em áreas remotas ou enfrentam dificuldades para chegar aos serviços de saúde. Nessa modalidade, a própria mulher utiliza um dispositivo semelhante a um cotonete para coletar uma amostra da região vaginal, que será analisada em laboratório para detectar o DNA do HPV. A oferta dessa modalidade ocorrerá no contexto dos programas organizados de rastreamento do SUS. Caso o resultado indique a necessidade de investigação complementar, a paciente deverá comparecer ao serviço de saúde para realizar o Papanicolau e dar continuidade à avaliação.
“O desafio agora é garantir que essa tecnologia chegue também às mulheres que vivem no interior e em regiões com menor oferta de serviços. A autocoleta e a busca ativa podem ampliar a cobertura do rastreamento, desde que exista uma rede preparada para acompanhar essas pacientes até a conclusão do cuidado”, pontua a especialista.
As especialistas ressaltam, ainda, que as novas recomendações destinam-se ao rastreamento de mulheres sem sintomas. Quem apresentar sangramento vaginal anormal, sangramento após relações sexuais ou outros sinais suspeitos deve procurar avaliação médica independentemente da data do último exame preventivo.
A programação do 35º Congresso Brasileiro de Patologia e o 28º Congresso Brasileiro de Citopatologia incluirá também experiências de países da América Latina, como Argentina e Chile, permitindo comparar diferentes estratégias de implantação do teste de DNA-HPV e discutir caminhos para fortalecer programas organizados de rastreamento.
“Esse intercâmbio permitirá compreender diferentes modelos de organização do rastreamento, identificar desafios comuns e compartilhar soluções que poderão contribuir para o fortalecimento das políticas públicas de prevenção do câncer do colo do útero no Brasil”, conclui a Dra. Graziela.
Entenda como funciona o novo rastreamento do câncer do colo do útero
Mulher (≥25 anos) → Coleta → Teste de DNA-HPV
Resultado negativo → Novo exame em 5 anos
Resultado positivo:
- HPV 16 ou 18 → Colposcopia → Biópsia (se necessária)
- Outros tipos de HPV de alto risco → Papanicolau
- Sem alterações nas células → Acompanhamento pela equipe de saúde
- Com alterações nas células → Colposcopia → Biópsia (se necessária)
Autocoleta (quando indicada) → Teste de DNA-HPV
- Resultado negativo → Sem necessidade de investigação complementar
- Resultado positivo → Necessidade de investigação complementar → Papanicolau → Continuidade da avaliação
Serviço
35º Congresso Brasileiro de Patologia e 28º Congresso Brasileiro de Citopatologia
Data: 12 a 15 de agosto de 2026
Local: Centro de Convenções de Salvador (Av. Octávio Mangabeira, n. 5.490, Boca do Rio, Salvador/BA)
Especialistas disponíveis para entrevistas sobre:
- o que muda com o teste de DNA-HPV;
- o novo papel do Papanicolau no rastreamento;
- idade e intervalo recomendados para os exames;
- autocoleta e ampliação do acesso;
- desigualdades regionais na prevenção do câncer;
- importância da vacinação contra o HPV.























