Enxergar com clareza é fundamental para realizar atividades simples do cotidiano, como ler, estudar, trabalhar ou reconhecer alguém à distância. Por isso, quando a visão começa a ficar embaçada, as imagens parecem distorcidas ou o grau dos óculos muda com frequência, é comum acreditar que se trata apenas de uma alteração visual passageira. No entanto, esses sinais também podem indicar o desenvolvimento de uma doença ocular progressiva, que merece atenção especial entre adolescentes e adultos jovens: o ceratocone.
Celebrado em 10 de novembro, o Dia Mundial do Ceratocone chama a atenção para essa condição que afeta a córnea, estrutura transparente localizada na parte frontal do olho e responsável por ajudar na focalização das imagens. Considerada a principal causa de transplante de córnea no Brasil, a doença acomete cerca de 150 mil brasileiros por ano, segundo dados do Ministério da Saúde, e costuma ser diagnosticada com maior frequência entre os 10 e 25 anos de idade.
“O ceratocone é uma doença progressiva caracterizada pelo afinamento e pela alteração do formato da córnea, que deixa de apresentar sua curvatura habitual e passa a adquirir um aspecto mais pontiagudo, semelhante a um cone. Essa mudança interfere na maneira como a luz chega à retina e pode provocar diferentes graus de distorção visual, comprometendo a qualidade da visão”, explica o Dr. Pedro Leonardo Soriano, médico oftalmologista do HOPE.
Embora suas causas não estejam completamente esclarecidas, sabe-se que a doença possui uma relação com fatores genéticos e ambientais. Pessoas com histórico familiar de ceratocone apresentam maior predisposição, enquanto condições alérgicas, especialmente as que provocam coceira frequente nos olhos, podem contribuir para o desenvolvimento e a progressão das alterações na córnea.
“Um dos comportamentos que mais merece atenção é o ato de coçar os olhos. O atrito repetitivo pode provocar alterações na estrutura da córnea, favorecendo seu enfraquecimento e a progressão do ceratocone. Esse cuidado é ainda mais importante para quem apresenta alergias oculares, pois a coceira costuma ser frequente e, muitas vezes, acaba se tornando um hábito”, alerta o especialista.
Entre os principais sintomas estão visão embaçada, imagens distorcidas, sensibilidade à luz, dificuldade para enxergar à noite e necessidade de mudanças frequentes no grau dos óculos. Em alguns casos, a pessoa também pode perceber imagens duplicadas ou halos ao redor das luzes. Como a doença pode avançar gradualmente, nem sempre os primeiros sinais são identificados pelo paciente.
O diagnóstico é realizado por meio de avaliação oftalmológica e exames específicos que permitem analisar as características estruturais da córnea. Entre os principais recursos utilizados estão a topografia e a tomografia corneana, que possibilitam identificar alterações em seu formato, curvatura e espessura. Mais recentemente, novas diretrizes internacionais reforçaram a importância de uma abordagem multimodal, que integra diferentes tecnologias de imagem e avaliações biomecânicas para ampliar a investigação da doença e favorecer sua identificação em fases cada vez mais precoces.
A atualização faz parte do 2º Consenso Global de Ceratocone e Doenças Ectásicas da Córnea, publicado em julho de 2026 na revista científica Cornea. Elaborado com a participação de 128 oftalmologistas de diferentes países, o documento reúne recomendações atualizadas sobre definição, diagnóstico, classificação e tratamento da doença. Entre os avanços destacados está a integração de exames de imagem mais sofisticados, como a tomografia tridimensional e o mapeamento da espessura do epitélio corneano, além da avaliação biomecânica, que permite investigar as propriedades mecânicas e a resistência do tecido. A combinação desses recursos amplia as possibilidades de identificação de alterações iniciais e contribui para decisões clínicas mais individualizadas.
“É importante entender que não existe uma medida capaz de garantir a prevenção completa do ceratocone, já que há fatores genéticos envolvidos em seu desenvolvimento. Entretanto, evitar coçar os olhos, controlar quadros alérgicos e manter o acompanhamento oftalmológico são atitudes fundamentais para reduzir fatores associados à progressão da doença e favorecer a identificação precoce”, destaca o médico.
O tratamento depende do estágio em que a condição é identificada e das características de cada paciente. Nas fases iniciais, óculos ou lentes de contato podem ajudar a corrigir as alterações visuais. Já o crosslinking corneano é um procedimento que utiliza riboflavina, conhecida como vitamina B2, associada à luz ultravioleta, com o objetivo de aumentar a resistência do tecido e estabilizar a progressão da doença. Em situações mais avançadas, podem ser consideradas outras alternativas, como o implante de anéis intracorneanos e, em casos específicos, o transplante de córnea.
“O grande desafio é identificar a doença antes que as alterações estruturais se tornem mais acentuadas. Quando o diagnóstico acontece precocemente, temos mais possibilidades de acompanhar a evolução do quadro e indicar tratamentos que ajudam a preservar a visão. Por isso, especialmente na adolescência e no início da vida adulta, consultas oftalmológicas regulares e atenção a mudanças frequentes na qualidade da visão fazem toda a diferença”, finaliza o Dr. Pedro Leonardo Soriano.