O número de usuários de lentes de contato no Brasil dobrou em um ano, passando de 2 milhões para 4 milhões entre 2024 e 2025, segundo a Sociedade Brasileira de Lentes de Contato (Soblec). O crescimento vem acompanhado de hábitos de risco: cerca de 45% dos jovens usuários apresentam complicações oculares e, entre eles, mais de 35% não fazem a higienização correta das lentes, de acordo com a entidade. O alerta é do oftalmologista Dr. Danilo Jun, do Hospital CEMA, referência na especialidade e há 50 anos em atuação no Brasil, que reforça: a lente de contato é segura e eficaz quando bem indicada, adaptada e usada corretamente. O problema está no uso inadequado.
O tema é oportuno. A procura por lentes costuma crescer em períodos de férias, verão, viagens, esportes e festas, quando também aumentam a exposição à água e o uso prolongado. A menos de três semanas do Halloween, cresce ainda a busca por lentes coloridas e decorativas, muitas vezes vendidas informalmente, sem informações sobre a procedência.
Quem usa e por que usa
Segundo o médico, o perfil de usuários é amplo, com maior procura entre adolescentes e adultos jovens. A principal indicação é a correção de miopia, hipermetropia e astigmatismo, mas há demanda crescente por independência dos óculos na presbiopia, por praticidade no esporte e por estética. No Hospital CEMA, o médico observa aumento da procura, impulsionado pelo maior acesso a informação na internet e nas redes sociais.
“Os pacientes chegam ao consultório mais informados, mas é preciso lembrar que a adaptação não termina quando a lente é escolhida. A saúde ocular depende de hábitos corretos, da qualidade do material, da estabilidade do filme lacrimal e do acompanhamento profissional”, afirma o oftalmologista.
Os erros mais comuns no dia a dia
De acordo com o Dr. Jun, os deslizes que mais aparecem no consultório são:
- Dormir com as lentes, mesmo em cochilos rápidos
- Usar além do prazo de descarte
- Reutilizar a solução do estojo ou apenas completá-la, em vez de trocá-la por solução nova
- Lavar lentes e estojo com água da torneira
- Não higienizar bem as mãos antes de manusear as lentes
- Manter o mesmo estojo por tempo excessivo; a regra prática é trocá-lo ao menos a cada três meses
- Insistir no uso mesmo com desconforto, por querer enxergar bem ou não interromper a rotina
O médico esclarece ainda que a solução de soro fisiológico, sozinha, não desinfeta as lentes, e que lentes de descarte mensal não são necessariamente adequadas para dormir: frequência de descarte e autorização para uso noturno são características diferentes.
Lentes coloridas não são acessórios
Outro ponto que merece atenção, segundo o especialista, é para a compra de lentes pela aparência ou pelo preço, principalmente no caso das coloridas e estéticas. “Lentes de contato não são acessórios para emprestar, mas dispositivos médicos que exigem adaptação individual”, diz. Curvatura, diâmetro, posicionamento e interação com a superfície ocular precisam ser avaliados, mesmo em quem não tem grau.
Produtos sem procedência confiável ou sem adaptação podem causar inflamações, infecções, úlceras de córnea e, em casos graves, perda visual permanente. No Brasil, lentes de contato são produtos para a saúde regulados pela Anvisa, que já proibiu a comercialização dos itens sem registro. A compra pela internet só é segura com fornecedor confiável e uso conforme orientação profissional. O mesmo vale para o compartilhamento: emprestar lentes, mesmo “só uma vez”, favorece a transmissão de microrganismos.
Sinais de alerta: retire a lente e procure um oftalmologista no mesmo dia
Dor ocular, vermelhidão importante, sensibilidade à luz, visão embaçada ou reduzida, secreção e sensação persistente de corpo estranho exigem atendimento urgente, de preferência no mesmo dia. A orientação é retirar a lente imediatamente, não voltar a usá-la até a avaliação e não tentar resolver com colírios por conta própria, principalmente os que contêm antibióticos ou corticoides.
Veja então os 7 cuidados essenciais indicados pelo especialista:
- Lavar e secar bem as mãos antes de manusear as lentes.
- Respeitar o tempo de uso e o prazo de descarte.
- Nunca dormir de lentes sem indicação médica específica.
- Não tomar banho, nadar nem lavar as lentes com água.
- Usar a solução correta e nunca reutilizar a do estojo.
- Manter o estojo limpo e substituí-lo regularmente.
- Diante de dor, vermelhidão, fotofobia ou visão embaçada, retirar as lentes e buscar avaliação.
“A lente de contato deve proporcionar liberdade, conforto e qualidade de vida, mas nunca à custa da saúde ocular. Seus olhos não devem pagar o preço de um hábito inadequado”, finaliza Dr. Danilo Jun, oftalmologista do Hospital CEMA.