Com o envelhecimento entre os principais fatores de risco para a doença, especialistas da Sociedade Brasileira de Patologia e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) chamam atenção para a importância do diagnóstico e do cuidado individualizado entre mulheres com mais idade.
O câncer de mama costuma ganhar maior visibilidade durante o Outubro Rosa, mas um aspecto do perfil da doença merece atenção especial: sua relação com o envelhecimento. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), cerca de quatro em cada cinco casos ocorrem após os 50 anos, e a idade está entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença.
Para o triênio 2026-2028, o INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil. Excluindo os tumores de pele não melanoma, a doença deverá representar aproximadamente 30% dos novos casos de câncer entre as mulheres brasileiras.
O risco aumenta com a idade devido, entre outros fatores, ao acúmulo de exposições ao longo da vida e às próprias alterações biológicas relacionadas ao envelhecimento. Nesse cenário, rastreamento e atenção aos sinais da doença assumem especial importância.
No Brasil, o Ministério da Saúde ampliou em 2025 a faixa etária recomendada para o rastreamento populacional do câncer de mama no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, a orientação é a realização de mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos.
“Completar 60, 70 ou mais anos não significa que a atenção à saúde das mamas possa ser interrompida. Não deveríamos simplesmente estabelecer uma data de validade para a prevenção. A decisão sobre continuar o rastreamento deve ser individualizada, considerando estado geral de saúde, funcionalidade, expectativa de vida, riscos, benefícios e preferências da própria mulher”, afirma a Dra. Theodora Karnakis, médica geriatra e presidente da Comissão de Oncogeriatria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
É importante, porém, diferenciar rastreamento de investigação diagnóstica. A faixa etária estabelecida para o rastreamento periódico não limita a investigação diante de sinais ou sintomas suspeitos.
“Se surgir um nódulo, alteração na pele ou no formato da mama, retração do mamilo, secreção ou qualquer mudança nova e persistente, essa alteração precisa ser avaliada, independentemente da idade ou de quando foi realizada a última mamografia”, orienta a Dra. Theodora.
Diagnóstico preciso orienta o tratamento – A jornada até a confirmação do câncer de mama envolve diferentes especialidades. Alterações suspeitas podem ser inicialmente identificadas em exames de imagem, como mamografia e ultrassonografia. Diante da necessidade de investigação, uma biópsia pode ser solicitada, e os fragmentos do tecido são encaminhados ao laboratório para análise pelo médico patologista.
A Dra. Marina De Brot, patologista especialista em Patologia Mamária e vice-presidente para Assuntos Acadêmicos da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), explica que é a partir dessa avaliação que o diagnóstico pode ser confirmado e características fundamentais da doença são identificadas.
De acordo com a especialista, a análise anatomopatológica permite determinar, entre outras informações, o tipo e o grau do tumor e suas características moleculares. Esses parâmetros são essenciais para que mastologistas e oncologistas definam a estratégia terapêutica mais adequada para cada paciente.
Envelhecimento exige cuidado individualizado – A maior ocorrência do câncer de mama com o avanço da idade não significa, contudo, que todas as mulheres mais velhas devam ser avaliadas da mesma maneira. Condições clínicas, funcionalidade, presença de outras doenças, tratamentos em andamento e as próprias preferências da paciente podem fazer parte das decisões tomadas pela equipe multidisciplinar.
Segundo a Dra. Theodora, a idade cronológica, isoladamente, não deve definir o tratamento oncológico. Na pessoa idosa com câncer, além das características do tumor e do estágio da doença, é necessário avaliar aspectos como funcionalidade, cognição, estado nutricional, comorbidades, medicamentos em uso, suporte familiar e social, além da presença de fragilidade e das próprias expectativas e objetivos da paciente.
“À medida que envelhecemos, aumenta muito a heterogeneidade entre as pessoas. Duas mulheres de 75 anos podem ter condições de saúde, funcionalidade, autonomia e reserva fisiológica completamente diferentes”, explica a especialista.
Nesse cenário, informações diagnósticas precisas são fundamentais para orientar decisões individualizadas sobre o tratamento. A Dra. Ruana Moura Rocha Costa, patologista especialista em Patologia Mamária e membro da SBP, chama atenção para o impacto do trabalho do patologista ao longo dessa jornada.
“O diagnóstico de qualidade permite a definição adequada do tratamento, o que aumenta as chances de sobrevida e melhora a qualidade de vida das pacientes. Então, a cada diagnóstico preciso, renova-se a esperança de cura”, finaliza a Dra. Ruana.
























