Estilo de vida masculino e uso direto da fertilização sem tratamento prévio do homem podem alterar marcas moleculares do espermatozoide
Uma ampla revisão científica liderada pelo Prof. Dr. Jorge Hallak, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e publicada no periódico internacional Epigenomics revela que a epigenética – o conjunto de “chaves de liga e desliga” dos genes – desempenha um papel determinante na fertilidade masculina e na saúde dos filhos.
Os mecanismos epigenéticos funcionam como instruções químicas sobre como o corpo deve ler o DNA. Fatores como obesidade, estresse crônico, consumo de álcool, cigarro, drogas de abuso, exposição a poluição/toxinas e idade paterna avançada alteram a estrutura química do espermatozoide.
Essas alterações não alteram a sequência do DNA em si, mas mudam a forma como os genes do futuro embrião serão expressos e sua função, alterada. Como resultado, espermatozoides de homens expostos a esses fatores podem transmitir alterações que aumentam o risco de a criança desenvolver obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, transtornos neuropsiquiátricos, câncer e problemas de fertilidade no futuro.
O “atalho” da reprodução assistida
Segundo os autores, quando o casal recorre diretamente à fertilização assistida sem antes investigar e tratar as causas da infertilidade masculina, há o risco de utilizar espermatozoides com alterações epigenéticas profundas ou com DNA danificado.
Além disso, etapas de laboratório como o cultivo do embrião, a alteração nos níveis de oxigênio e o congelamento de gametas ocorrem em janelas de alta sensibilidade biológica, podendo interferir no desenvolvimento da placenta e do embrião.
“A reprodução assistida é uma conquista fantástica, mas não deve ser usada como um atalho que ignora a saúde do homem. Tratar a causa da infertilidade masculina, ajustar o estilo de vida e reduzir o estresse oxidativo antes de tentar a gravidez melhora a taxa de sucesso e protege a saúde da criança a longo prazo”, afirma o Prof. Dr. Jorge Hallak.
Avaliar e tratar antes de intervir
Os pesquisadores defendem uma mudança de postura na medicina reprodutiva, como investigar a saúde do homem antes de submeter a mulher a tratamentos hormonais e procedimentos invasivos, e a adoção de dieta equilibrada, perda de peso, redução do estresse e interrupção do uso de tabaco e álcool ajudam a “reprogramar” positivamente os espermatozoides.
De acordo com o estudo, condições como a varicocele (varizes nos testículos), infecções e desequilíbrios hormonais podem e devem ser tratadas para melhorar a qualidade do esperma. “É necessário identificar e tratar a causa da infertilidade e também melhorar a qualidade espermática antes de se prosseguir com técnicas invasivas de reprodução assistida”, destaca o professor.
A pesquisa conclui que a resposta definitiva sobre todas as consequências da reprodução assistida só virá quando as crianças nascidas por essas técnicas atingirem a velhice. Até lá, tratar preventivamente a saúde do genitor é a forma mais responsável de garantir o bem-estar das próximas gerações.
O artigo está disponível no periódico internacional Epigenomics (DOI: 10.1080/17501911.2026.2633977).*
























