Avanços na neurocirurgia ampliam opções de tratamento para crianças
Tecnologias orientam intervenções em tumores, hidrocefalia e outras condições que afetam o desenvolvimento
Cirurgias guiadas por imagens, procedimentos por endoscopia e monitorização das funções nervosas durante as operações ampliam as opções de tratamento de crianças com tumores cerebrais, hidrocefalia e outras condições neurológicas. Na neurocirurgia pediátrica, esses recursos ajudam a planejar intervenções e preservar estruturas relacionadas ao movimento e a outras funções essenciais ao desenvolvimento. A indicação depende das características de cada caso e da disponibilidade das tecnologias no serviço.
O avanço permite enfrentar um dos principais desafios da especialidade: tratar a doença em um sistema nervoso ainda em formação, considerando os efeitos da intervenção ao longo da vida. “A tecnologia amplia nossa capacidade de localizar lesões e reconhecer estruturas que precisam ser preservadas. Mas a decisão central continua sendo definir qual tratamento oferece o melhor equilíbrio entre controle da doença, segurança e desenvolvimento da criança”, afirma Tancredo Alcântara, neurocirurgião pediátrico do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS).
Das malformações aos tumores
Entre as condições atendidas estão a hidrocefalia, caracterizada pelo acúmulo anormal do líquido que circula pelo cérebro e pela medula; a mielomeningocele, forma de espinha bífida; e a craniossinostose, fechamento precoce de uma ou mais suturas do crânio. A neurocirurgia pediátrica também atua em traumatismos e em determinadas epilepsias resistentes a medicamentos, após investigação para avaliar a possibilidade de cirurgia.
Os tumores do sistema nervoso central, por sua vez, estão entre os cânceres mais frequentes na infância, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Nesses casos, a cirurgia pode permitir a retirada da lesão ou a obtenção de material para diagnóstico, orientando um tratamento que pode incluir outras abordagens, conforme o tipo de tumor.
“Retirar mais tecido nem sempre significa alcançar um resultado melhor. Quando uma lesão está próxima de áreas importantes, precisamos avaliar até onde é seguro avançar. Preservar a capacidade de se movimentar, se comunicar e aprender também é uma medida de sucesso do tratamento”, explica Alcântara.
Como a tecnologia ajuda
A neuronavegação utiliza exames de imagem para orientar a localização da lesão e o acesso cirúrgico. Já a monitorização neurofisiológica acompanha sinais das vias nervosas durante a operação, auxiliando na identificação de alterações em estruturas relacionadas, por exemplo, aos movimentos. Esses recursos complementam a avaliação e a experiência da equipe.
Na hidrocefalia, a neuroendoscopia permite, em casos selecionados, criar uma passagem interna para o líquido, como alternativa à implantação de um sistema de drenagem, chamado derivação. A escolha considera fatores como idade, causa da doença e anatomia do paciente.
Sinais que merecem investigação
Para que as possibilidades de tratamento sejam avaliadas no momento adequado, reconhecer mudanças na criança é fundamental. Dores de cabeça persistentes, vômitos e alterações motoras ou de comportamento estão entre os sinais que merecem atenção. Embora possam ocorrer em doenças comuns da infância, a persistência ou a piora exige avaliação médica, orienta o Inca.
“Perder uma habilidade já adquirida, começar a cair com frequência ou apresentar crescimento acelerado da cabeça, no caso dos bebês, são mudanças que precisam ser investigadas. Isso não significa necessariamente uma doença cirúrgica, mas não deve ser atribuído automaticamente a uma fase do crescimento”, ressalta o médico.
O acompanhamento continua após a alta, com avaliação do desenvolvimento e reabilitação quando necessária. Segundo Tancredo Alcântara, “o resultado também aparece na rotina: na volta às brincadeiras, à escola e ao convívio familiar. Por isso, o cuidado envolve diferentes profissionais e a participação da família”, conclui o neurocirurgião pediátrico do HMDS