Depois de décadas de pesquisas e tentativas frustradas, um tratamento inédito contra o Alzheimer acaba de chegar ao Brasil, trazendo novas perspectivas para pacientes e familiares. A Anvisa aprovou o uso do Kisunla, nome comercial do donanemabe, um anticorpo monoclonal desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly que atua na remoção das placas de beta-amiloide do cérebro — proteínas cuja acumulação está diretamente associada à degeneração dos neurônios característica da doença. A novidade é considerada um marco porque, diferentemente dos medicamentos disponíveis até agora, que atuam apenas no alívio dos sintomas, este fármaco promete retardar a progressão do Alzheimer em estágios iniciais, preservando a memória e as funções cognitivas por mais tempo.
Os estudos clínicos que embasaram a aprovação mostraram resultados animadores. No ensaio TRIALBLAZER-ALZ 2, pacientes que receberam o tratamento apresentaram até 35% de redução no declínio cognitivo em comparação ao grupo placebo, além da remoção significativa das placas amiloides detectadas em exames de imagem. O medicamento é indicado para pessoas que apresentam comprometimento cognitivo leve ou demência leve, fases em que a intervenção precoce pode realmente mudar o curso da doença. O tratamento é feito por meio de infusão intravenosa mensal, em ambiente hospitalar, com acompanhamento rigoroso.
Apesar do avanço, especialistas alertam para limitações importantes. Os efeitos adversos incluem edema cerebral, hemorragias e reações alérgicas, o que exige rigorosa seleção dos pacientes e monitoramento contínuo. Além disso, o custo do tratamento deve ser elevado, já que envolve não apenas o medicamento em si, mas também exames de alta complexidade, como tomografias, ressonâncias e PET scans, necessários para diagnóstico e acompanhamento. Por enquanto, não há previsão de incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) nem obrigatoriedade de cobertura pelos planos privados, o que restringe o acesso principalmente a pacientes atendidos na rede particular.
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva e ainda sem cura, que atinge milhões de pessoas em todo o mundo. Estima-se que no Brasil mais de 1,2 milhão de pessoas convivam com a doença, muitas vezes diagnosticada de forma tardia, quando os recursos terapêuticos já têm eficácia limitada. Por isso, o desafio é também ampliar o acesso a diagnóstico precoce, fator essencial para que o novo tratamento possa cumprir sua promessa de frear a perda cognitiva e oferecer mais qualidade de vida aos pacientes e suas famílias.





















