Em um avanço com potencial impacto significativo na saúde pública brasileira, cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciaram resultados promissores no uso de exame de sangue para diagnóstico do Alzheimer — uma abordagem menos invasiva e menos onerosa que os métodos tradicionais.
O foco da pesquisa é uma proteína chamada p-tau217 (uma forma fosforilada da molécula tau), identificada em plasma (sangue) com capacidade de distinguir pacientes com Alzheimer daqueles sem a doença com precisão superior a 90%. Em testes com 59 pacientes, a performance do exame de sangue rivalizou com a análise de líquor, considerada “padrão-ouro” em muitos protocolos diagnósticos.
Por que essa descoberta é relevante?
Atualmente, o diagnóstico definitivo de Alzheimer recorre a técnicas complexas e dispendiosas, como imagem PET com traçadores de amiloide ou punção lombar para análise do líquido cefalorraquidiano (líquor). Essas técnicas são frequentemente inacessíveis, especialmente nas regiões mais remotas ou com menos recursos.
Um exame sanguíneo com biomarcador de alta acurácia traria benefícios múltiplos:
- Menor invasão: dispensaria punção lombar em muitos casos.
- Custo reduzido: técnicas de sangue tendem a ser mais baratas e escaláveis.
- Acesso ampliado: poderia levar o diagnóstico precoce às regiões menos assistidas do país, inclusive na rede pública.
- Detecção precoce: identificar alterações antes de sintomas graves permite intervenções mais eficazes e um melhor gerenciamento clínico.
Desafios e limitações
Embora os resultados sejam promissores, ainda há obstáculos antes de o exame poder ser adotado rotineiramente:
- Validação em escala maior
Os estudos até agora envolveram centenas ou dezenas de indivíduos. É necessário ampliar para milhares de participantes, com diversidade geográfica, etária e de perfil socioeconômico, para confirmar robustez dos achados. - Inclusão de populações vulneráveis
A pesquisa brasileira destacou que muitos estudos globais negligenciam populações de baixa escolaridade ou regiões periféricas. O estudo da UFRGS fez um esforço para incluir essas populações, o que fortalece a relevância dos resultados no contexto nacional. - Regulação e aprovação clínica
O exame ainda não tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). É preciso superar barreiras regulatórias, normas de ensaio clínico e padronização laboratorial. - Integração ao sistema de saúde
Mesmo que aprovado, será necessário inserir o exame nos fluxos de atendimento, treinar laboratórios, garantir acesso no Sistema Único de Saúde (SUS) e definir critérios de uso. Os pesquisadores planejam iniciar testes em escala nacional até 2025.
Os próximos passos
Conforme afirmado pelos líderes do estudo, Wyllians Borelli e Eduardo Zimmer, o objetivo é testar a tecnologia em larga escala e apresentar dados consistentes até 2027. Também já há revisão internacional (metanálise publicada na Lancet Neurology) reunindo mais de 110 estudos com quase 30 mil participantes, que coloca o p-tau217 como um dos biomarcadores mais promissores para Alzheimer.





















