Foto: Roberto Abreu/Divulgação
A médica Ana Amélia Viana, uma das convidadas do encontro promovido pela MSD Farmacêutica em Salvador nesta quarta-feira (3), destacou a necessidade urgente de uma abordagem mais ampla, inclusiva e equitativa na atenção à saúde, especialmente no cuidado oncológico de mulheres negras.
Segundo a especialista, dados recentes revelam um cenário paradoxal: embora a incidência de câncer de mama seja ligeiramente menor entre mulheres negras — cerca de 5% inferior à observada entre mulheres brancas — a mortalidade é quase 40% maior nesse grupo. “Essa discrepância não é fruto de um único fator. Trata-se de um fenômeno multifatorial, no qual os determinantes sociais têm peso significativo”, afirmou.
Ana Amélia apontou que o acesso desigual a exames de rastreamento, medicamentos e início oportuno do tratamento, aliado à dificuldade em manter terapias prolongadas devido a menor rede de apoio, contribui diretamente para o aumento da mortalidade. Ela destacou ainda a influência de vieses implícitos e manifestações de racismo no atendimento médico. “A estrutura social brasileira, com suas raízes históricas, reflete-se no cuidado em saúde. Pacientes negros podem receber um tratamento inferior sem que isso seja intencional, mas o impacto é real e grave”, completou.
Para a médica, enfrentar esse problema exige mudança de postura e preparo dos profissionais de saúde. “A maneira como abordamos o paciente, o tempo dedicado à consulta e a qualidade da comunicação fazem toda a diferença. Precisamos garantir que cada pessoa receba informações claras, acolhimento adequado e zero tolerância a discriminações. Só assim caminharemos para uma medicina verdadeiramente inclusiva.”
Durante o evento, a oncologista reforçou que a evolução da medicina não depende apenas de inovação farmacêutica, mas também da capacitação contínua das equipes de saúde. “Estamos avançando para uma medicina mais completa. Isso inclui atualizar a formação de médicos, enfermeiros e equipes multidisciplinares, especialmente no cuidado ao câncer, onde o trabalho conjunto é essencial.”
Ela ressaltou ainda que a prática médica atual precisa enxergar o paciente de forma integral — física e mental. “O racismo também adoece emocionalmente. Um atendimento que desconsidera isso compromete o tratamento. O mesmo vale para a população LGBTQIA+ e para pessoas neurodivergentes, que enfrentam desafios específicos e muitas vezes não contemplados na formação tradicional.”
Ao concluir, a médica defendeu a revisão dos currículos de formação em saúde e o investimento em um cuidado mais humano. “Precisamos preparar nossos profissionais para acolher a diversidade da população brasileira. Medicina de qualidade é medicina para todos.”





















